ASTÚNCIO, O ESTÚPIDO ESCLARECIDO – RESENHANDO LITERATURA

Astúncio era um homem amante dos livros. Todo seu conhecimento foi adquirido através deles, e, o valor que lhes dava é incomensurável. No entanto, passou a perceber que as pessoas a seu redor não tinham as mesmas aspirações, deixando-se invadir por uma letargia sem igual, eles prezavam pelas conveniências sociais sem ao menos pararem para analisar as situações em que se envolviam. Para eles o conhecimento não tinha relevância, davam muito mais ênfase ao que era ralo e superficial. É a partir de então que Astúncio tenta se readequar aquilo que convencionamos chamar sociedade.
Astúncio é um personagem profundo que através de sua crise existencial temporária nós faz refletir no caminho que estamos trilhando. Pontuando aqui e ali as realizações humanas, nem sempre louváveis, ele nos faz enxergar o quanto a nossa sociedade é hipócrita e destemperada. Há nesse livro uma quantidade enorme de críticas ao ser humano, aos governos e a falta de vontade de melhorarmos e buscarmos conhecimento. Tudo isso feito com maestria e com uma grandiosidade poética que encanta. É um trabalho para ser lido com calma, tamanha a sua profundidade.
Recomendo a leitura!
ASTÚNCIO, O ESTÚPIDO ESCLARECIDO – POETISA MILLEZ

Este ano marcou-me como ferro quente que marca ao gado. Contudo, a ferida, dada por superficial, infiltrou-se em meu ser, embrenhando-se às tantas outras cicatrizes. Em meio a tudo isso, Ricardo surge desafiando-me a escrever e, instigando-me assim, a empunhar novamente a pena esquecida num canto.
E então, eis que passo semanas carregando o Astúncio para todo lado! Comigo visitou todos os cômodos da casa. Fechado, porém, presente. O fato é que a ansiedade, minha outra e mais antiga companheira, enciumada não admitia-me abri-lo.
Era como se a pressa por concluir não permitisse que eu, ao menos, iniciasse. Afinal, pairava densa a dúvida de que quando estivesse completa, a tal resenha estaria à altura do romance premiado?
Qual seria o parecer? Satisfatória? Mediana? Não, isto me seria inadmissível. Um de meus maiores medos sempre foi tornar-me morna em minh’arte, pois a tinta que escorro no papel reflete a alma que não me habita, mas na qual habito.
Quando finalmente adentrei a este universo em prosa, contudo, encharcado em poesia, deparei-me com um cenário inesperado. A narrativa traz consigo um riquíssimo vocabulário, em cenários vertiginosos. Diálogos e monólogos que desafiam a pensar e repensar a vida. A cada linha escrita, o autor/filósofo/poeta questiona a realidade que não devia ser. Mas é, dolorosamente.
A obra que de forma paradoxal seguro em uma mão, caiu sobre mim com um peso imensurável, dividindo-me em duas. Agora, apenas metade segue. A outra? Abandonei-a ainda por entre as páginas primeiras. Ora, catatônica, desaprendeu a caminhar.
E o quão importante não é deixarmos para trás pedaços de nós que já não condizem com nossas vivências, experiências e conhecimentos adquiridos ou acumulados? Mudar de ideia é ação dourada que merecia ser mais valorizada que o eterno orgulho governante das nações.
As metáforas homem/animal, animal/homem sacodem a gente de dentro pra fora. Astúncio busca a verdade enquanto desvia-se das moscas da feira e incendeia a si próprio na jornada. Assim ressurge, reconhece-se, ensina.
O livro não é daqueles que devora-se d’uma vez, pois é necessário que seja amarga e vagarosamente degustado. Digerido. Eu, não sabia, mas precisava lê-lo. E através de mim, não há dúvidas, seus questionamentos hão de ecoar.
Millez
